Nesta sexta-feira (31), o prefeito Bruno Covas apresentou oficialmente os dados do Censo Municipal da População de Rua da capital que apontaram aumento de 15 mil para 24,3 mil pessoas sem um teto para viver na maior e mais rica cidade do país. Um salto de 60%.

A ideia inicial deste artigo era justamente analisar como a política neoliberal, que preza pela retirada de direitos e pelo desmonte da rede de proteção social – o que se evidencia nos mais de 1,4 milhão de desempregados –, é a responsável direta pela explosão da população de rua em São Paulo.

Porém, a coletiva de imprensa concedida pelo prefeito nesta sexta-feira (31) revelou mais do que trágicos números. Enquanto tentava apresentar qualquer justificativa plausível para o descalabro social de sua gestão, Bruno Covas foi interrompido por recenseadores. Com cartazes em mãos, contestaram os dados, segundo eles, infinitamente superiores aos oficiais. A denúncia feita também citava uma espécie de “limpeza” de áreas com grande concentração de moradores em situação de rua, como o Minhocão e a Cracolândia, horas antes de a equipe do censo ir a campo.

O protesto não era mera balbúrdia. De acordo com o Movimento Estadual de População de Rua de SP, o número real de desamparados por políticas de moradia estaria em torno de 32 mil pessoas – já que o próprio Cadastro Único da prefeitura traz 30 mil inscritos. O que fizeram os recenseadores, portanto, foi desmascarar, ao vivo, a faceta neoliberal e marqueteira da gestão Doria/Covas.

Restou ao prefeito, desavergonhadamente, refazer as próprias promessas ao afirmar que o censo foi divulgado apenas em parte, já que o levantamento, de acordo com ele próprio, “continuaria a ser realizado ao longo do ano”.

Fica a pergunta: o prefeito omitiu o levantamento ou mentiu sobre ele?

Se foi omissão ou mentira ainda não sabemos, mas, ao maquiar tais dados, a administração municipal atua no sentido de aumentar a invisibilidade, a marginalização e nega à população de rua os seus direitos. Papel totalmente oposto ao que se espera do poder público. Ora, o prefeito sabe muito bem que, sem dados reais, qualquer política pública é natimorta.

Há anos denuncio o desmonte completo da rede de proteção social paulistana como forma de governo. Os dados que vieram a público são um espelho para aqueles que ainda se negam a acreditar na nefasta e desgastada política neoliberal implantada pela gestão Doria/Covas.

Mas nem sempre foi assim.

Na gestão Marta, criamos o projeto Oficina Boracea, uma parceria da Secretaria de Assistência Social – comandada à época por Evilásio Farias e, posteriormente, por Aldaíza Sposati – e a Associação AeC, voltado para moradores em situação de rua que trabalhavam com reciclagem. O projeto funcionava em um terreno cedido pela Secretaria de Abastecimento, então gerida por mim, onde funcionavam núcleos cooperativos, com geração de trabalho, renda e inserção social.

Na gestão Fernando Haddad, foram criados projetos inovadores que ajudaram a dar dignidade e oportunidades para a população mais vulnerável, pobre e, principalmente, aos que viviam na rua.

O projeto Braços Abertos, por exemplo, oferecia moradia e oportunidade de trabalho para os dependentes químicos.

Ao final de 2016, quando Haddad deixou a prefeitura, pelo menos 84,6% dos atendidos pelo programa passaram a fazer tratamento contra a dependência, 72,7% dos beneficiários estavam trabalhando e 55% recuperaram o contato com a família. O projeto foi extinto por João Doria que, em mais uma ação marqueteira, criou o Redenção – não precisa dizer que, como todas as promessas do agora governador, o projeto não decolou.

Foi também na gestão Haddad, da qual fiz parte como secretário de Mobilidade e Transportes, que pelo menos 1,06 milhão de famílias foram inscritas no Cadastro Único da prefeitura. Além disso, mais de 383 mil famílias passaram a receber o Bolsa Família.

Somam-se a isso o fortalecimento dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), a criação de 32 conselhos populares participativos, a notificação de mais de mil imóveis ociosos – um total de 2,3 milhões de metros quadrados voltados para cumprir a função social de propriedade. Enfim, uma gestão moderna com orçamento inclusivo e marcada pela participação popular.

Uma cidade que respeita os direitos civis e a dignidade humana não pode fazer seu povo abrir mão da verdade, pois ele não merece ter seus impostos usados em ações marqueteiras que o impedem de conhecer a realidade da capital – seja ela árdua ou não.

Artigo publicado originalmente na Revista Forum

CAMPANHA PREFEITO: JILMAR TATTO E VICE: ZARATTINI - PT
CNPJ: 38.639.000/0001-09

FacebookTwitterEmailFacebook Messenger